A sirene ecoava entre os prédios altos da Avenida Paulista, mas ninguém realmente prestava atenção.
Em São Paulo, sirenes eram como buzinas — parte do ambiente.
Mas aquela não.
Aquela carregava urgência.
O corpo estava pendurado.
Não por corda.
Não por gancho.
Mas preso por fios finos de aço, quase invisíveis, como se alguém tivesse transformado o cadáver em uma instalação artística macabra.
O vento mexendo o corpo e o leve rangido dos fios, transformavam o ambiente.
Um pequeno grupo de curiosos se aglomerava atrás da fita de isolamento.
Celulares erguidos.
Flashs.
Comentários.
— “Isso é real?”
— “Parece coisa de filme…”
Mas não era.
Ela chegou sem pressa.
E isso sempre incomodava todo mundo.
Dra. Bárbara Roque caminhava como se o caos ao redor não existisse. Olhar firme, expressão neutra — quase fria — mas os olhos… os olhos absorviam tudo.
Cada detalhe.
Cada erro.
Cada silêncio.
— Chegou tarde — resmungou o perito mais velho.
Ela nem olhou pra ele.
— Cheguei na hora em que vocês pararam de entender o que estão vendo.
Silêncio.
— Bárbara — chamou uma voz atrás.
Ela virou levemente.
José Carlos Neto.
Jovem, atento, inquieto. Olhos que buscavam padrões onde ninguém mais via.
— Você vai querer ver isso — disse ele, já puxando a fita e conduzindo-a para perto do corpo.
O cadáver já estava deitado no chão, era de um homem, cerca de 40 anos.
Roupa social.
Sem sinais aparentes de luta.
Sem sangue no chão.
Sem desordem.
Tudo… limpo demais.
Ela evita olhar o rosto por 1 segundo.
— Isso não faz sentido — murmurou José Carlos.
Bárbara já estava um passo à frente.
— Faz. Só não é o tipo de sentido que você espera.
Ela se aproximou.
Abaixou levemente o rosto.
Observou.
Não o corpo inteiro.
Não o cenário.
Mas um ponto específico.
Sempre um ponto específico.
Que causou um incomodo emocional, algo que para ela não era normal.
— Aqui.
Ela apontou.
No abdômen da vítima, havia um corte.
Não profundo.
Não caótico.
Mas… preciso.
Linhas finas, desenhadas com extremo cuidado.
José Carlos estreitou os olhos.
— Isso é um símbolo?
Bárbara não respondeu de imediato.
Inclinou a cabeça.
Analisou ângulos.
Proporções.
Curvaturas.
Então falou:
— Não é um símbolo qualquer.
Pausa.
— É um mapa.
— Um mapa? — José Carlos franziu o cenho.
Ela levantou.
— Não exatamente… um mapa completo. É um fragmento.
— De quê?
Ela finalmente olhou para ele.
— Da cidade.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais pesado.
Mais perigoso.
— Você tá dizendo que alguém… — José Carlos começou.
— Está marcando a cidade usando corpos — completou ela.
Nesse momento, outra voz entrou na cena.
— Ou está nos dizendo onde procurar.
Dr. Carlos Eduardo Cruz.
O legista.
Calmo. Metódico. Quase cirúrgico até na forma de falar.
— Hora da morte? — perguntou Bárbara, sem tirar os olhos do corte.
— Entre 2 e 4 da manhã — respondeu Carlos Eduardo. — Sem sinais de resistência. Provável sedação.
— Tipo de arma?
— Lâmina fina. Estilete ou bisturi, talvez. Corte limpo demais pra outra coisa.
Bárbara respirou fundo.
Agora tudo começava a encaixar.
Rápido demais.
E isso era ruim.
Ela deu mais um passo para trás.
Observou o corpo inteiro.
Os fios.
A posição.
A altura.
A iluminação natural do local.
Então disse:
— Isso não é só um assassinato.
Pausa.
— É uma mensagem.
— Pra quem? — perguntou José Carlos.
Ela respondeu sem hesitar:
— Pra gente.
Um barulho cortou o ar.
Um celular vibrando.
Era o de José Carlos.
Ele olhou.
Franziu a testa.
— Bárbara…
— O quê?
— Acabaram de encontrar outro corpo.
Silêncio.
— Onde?
Ele engoliu seco.
— No Parque Ibirapuera.
Bárbara não demonstrou surpresa.
Mas por dentro…
Algo mudou.
— Então não é uma mensagem — disse ela, já caminhando em direção à saída.
José Carlos a seguiu.
— E ele já fez a primeira jogada… antes da gente chegar.
E, pela primeira vez naquela manhã…
Bárbara Roque sorriu.
Mas não era um sorriso de satisfação.
Era o tipo de sorriso que só aparece quando alguém entende o nível do inimigo.
E esse inimigo…
Estava apenas começando.
